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Antígona e a ética trágica da psicanálise
> Entrevista: Ingrid Vorsatz

Como foi o processo da pesquisa?
No decorrer da pesquisa fui levada a trilhar as veredas abertas pelos helenistas, sobretudo europeus, devido a escassez de títulos nacionais e/ou traduções de obras estrangeiras que versassem sobre o tema. Tampouco pude encontrar referências bibliográficas que subsidiassem o recorte que propus, isto é, a articulação entre o universo trágico e a ética da psicanálise. Assim, no campo da psicanálise foram as proposições de Lacan e de Freud que nortearam o trabalho de investigação. Em relação ao mundo helênico e a partir da indicações fornecidas por Lacan em seu seminário sobre a ética da psicanálise, foi possível sublinhar a homologia de determinação entre o herói trágico e o sujeito moderno. Vale dizer, entre a posição assumida pela heroína sofocliana Antígona - a de fazer valer em ato a injunção divina - e aquilo que se encontra em causa numa psicanálise, vale dizer, a convocação ao sujeito em garantir o campo inconsciente e o desejo por ele articulado.
Tratou-se de investigar em que medida o ethos trágico, ao iluminar a relação do sujeito com o seu ato, pode contribuir para a fundamentação da ética própria à psicanálise. Uma ética que parte da exclusão da possibilidade de conformidade a um bem - assim como a tragédia antiga - e coloca em questão não mais os desígnios insondáveis dos deuses ou a inexorabilidade do destino, mas sim a relação do ato do sujeito ao desejo que o constitui. Uma relação que se funda em perda, em descontinuidade com a cadeia ou a ordem causal que antecede e engendra o sujeito, fazendo ressaltar a dimensão objetal deste sujeito paradoxal.
Além de árduo, foi um trabalho prazeroso.

Por que optou pela tragédia grega para elucidar teorias de Lacan?
Essa pergunta toca o nervo da questão. De fato, parti dessa interrogação, de resto bastante simples: por que, ao tratar da ética da psicanálise, Lacan privilegiou a tragédia antiga - mais precisamente a Antígona de Sófocles -, sem fazer apelo às diferentes declinações que a problemática ética assumiu no campo filosófico, berço da teorização sobre a ética? Esta pergunta, aparentemente trivial, constituiu o fio condutor do trabalho. Se a filosofia pensa e teoriza a ética desde as formulações de Aristóteles, a tragédia ática, anterior ao estabelecimento de um saber regulador da vida na polis e das relações entre os homens, apresenta em ato (sem representar por meio do pensamento abstrato-conceitual) o herói trágico diante de uma escolha não deliberativa a ser assumida em ato, fora da perspectiva da mestria. Trata-se de uma decisão não voluntária - em que pese o paradoxo - que não leva em conta o bem (seja o próprio, seja o bem comum) e pela qual ele deverá se responsabilizar plenamente, sem fazer apelo a qualquer espécie de justificativa. Mas longe de procurar elucidar a até então inédita formulação de Lacan a propósito de uma ética intrínseca ao campo psicanalítico procurei, a partir dos valiosos balizamentos assinalados por ele, adentrar o inesgotável mundo da poesia trágica no intuito de extrair de seus fundamentos aquilo que concerne à relação do sujeito ao desejo inconsciente.

O foco da pesquisa é a ética na psicanálise. Uma ética que engloba psicanalistas e pacientes?
Não é simples abordar a problemática ética sem o risco de recair numa definição exaustiva de caráter universal, justamente o que se trata de evitar. A ética posta em jogo na e pela psicanálise comporta uma dimensão trágica. O campo psicanalítico é fundado por Freud a partir do estabelecimento de seu conceito maior, o Inconsciente, que não se reduz a um mero negativo da consciência e seu corolário, a razão. Em um de seus seminários Lacan afirma que o psicanalista faz parte do conceito de inconsciente; de outra parte, a transferência é um campo no qual analista e analisante estão incluídos, em posições dessimétricas. A ética da psicanálise diz respeito ao desejo inconsciente que, advindo de um campo da mais radical alteridade, é desejo do Outro (e não do Eu). Não obstante, o sujeito deverá garantir a cada vez, ao preço uma perda - de seu suposto ser e sem o amparo do saber - o desejo inconsciente cuja substância é, de acordo com Lacan, a própria opacidade. A ética da psicanálise em tanto que uma ética referida ao desejo inconsciente concerne tanto ao sujeito quanto ao psicanalista, discriminadamente.
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