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A paixão
Entrevista exclusiva: Marcus André Vieira

O que o motivou a escrever sobre a paixão?
Quis dizer em poucas palavras o tanto que venho aprendendo sobre o assunto em minha prática com aqueles que se dispõem a jogar o jogo freudiano. É preciso falar de si sem exigir ao final da sessão receitas ou lições de bem-viver e isso por um tempo não pré-fixado. Se tomamos gosto pela coisa, os sentimentos mais estranhos costumam se apresentar, pedir e ganhar lugar em uma vida. Tenho tido muitas vezes a impressão de que vale a pena e, ainda bem, não estou sozinho nisso.

Qual o caminho que você escolheu para pesquisar sobre a paixão, trilhou a forma como Freud e Lacan trataram o afeto?
Este livro foi redigido onze anos após a publicação de minha tese de doutorado, sobre o mesmo tema, na França e também na Zahar. Naquela época percorri muita coisa guiado pela leitura lacaniana de Freud. Tentei agora ficar com o que dela tem me valido e busquei apoiar estas formulações em conhecidos nossos, um documentário de Eduardo Coutinho, uma canção de Fito Paez, um poema de Manuel Bandeira, foram alguns deles. Como a psicanálise lida sempre com o incongruente da vida, suas ideias e ferramentas nunca são as do senso comum, por isso precisamos do gênio dos que nos mostram como é possível encontrar, em pleno cotidiano, o mais sublime e incongruente singular.

Aproximar ética e paixão é uma forma de mostrar como a sociedade lida com esse sentimento, tentando domá-lo, e como a clínica procura libertá-lo para, dessa forma, encontrar suas marcas individuais?
Uma paixão não é um animal selvagem a ser domesticado. Ela está, segundo Lacan, mais para um bloco de carnaval, ou um trio elétrico. É uma maravilha, mas, dependendo do ponto onde a gente está quando ela vai passando, pode ser muito barulho por nada ou ainda um inferno. Uma análise propõe-se a descobrir para cada um de que modo a paixão entrega o segredo que esconde: exatamente ali, no burburinho da multidão, é que fica mais evidente como e porque não consigo deixar de viver as coisas de um jeito só meu.

Encontrar suas “marcas individuais” é uma forma de aprender a aceitar e viver melhor com os seus sentimentos? Essa, de certa forma, seria uma das conclusões do livro?
A análise atravessa a paixão para colher as partículas de singularidade que a sustentam. Levá-las a sério como ela propõe não precisa ser o pretensioso exercício do isolamento. Levar a sério aquilo que em nós resiste à formatação universal não nos torna eremitas, nem acaba com o carnaval. Até porque o que somos vem do que pudemos fazer com o que fizeram os outros conosco. A psicanálise não tem lições a dar nem propõe um modo de vida, mas apenas que cada um possa encontrar uma vida a seu modo.
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> “A psicanálise não tem lições a dar nem propõe um modo de vida, mas apenas que cada um possa encontrar uma vida a seu modo”, afirma o autor nessa entrevista, onde trata da paixão e da análise psicanalítica.

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