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Teoria das elites
> Entrevista: Cristina Buarque de Hollanda.

Teoria das elites pretende traçar um panorama completo e esclarecedor dos principais pensadores dos séculos XIX e XX que trataram o tema? Como escolheu esse percurso?
O objetivo do livro é apresentar ao leitor um conteúdo introdutório sobre o que se convencionou denominar [de] teoria das elites. Antes de chegar às formulações políticas e sociológicas de Gaetano Mosca, Vilfredo Pareto e Robert Michels, que são as referências clássicas para o tratamento deste tema, eu assinalo brevemente o que poderiam ser consideradas as bases de um pensamento elitista nas origens da política, lá no mundo antigo. Com este recuo histórico pretendo apontar que a controvérsia entre Sócrates e a pólis ateniense já contém, em alguma medida, os termos do desacordo entre elitistas e partidários da democracia-liberal em finais do século XIX e princípios do XX. Havia entre atenienses antigos um conflito entre duas perspectivas distintas de organização da vida na cidade: uma delas, democrática, percebia o cidadão comum como partícipe em potencial das decisões referidas ao mundo público e a outra, baseada na perspectiva de Sócrates, restringia esta possibilidade à elite dos sábios ou filósofos. Com o risco de certo anacronismo, podemos dizer que a política, logo em seguida a seu nascimento, experimentou um choque entre elitismo e contra-elitismo. Este antagonismo, portanto, tem longa data na história do Ocidente. Em seguida a este esforço introdutório, passo a tratar do cenário intelectual em que se situaram Mosca, Pareto e Michels. Sem perder de vista as importantes nuances entre suas visões sobre política e sociedade, busco entender “contra quem” e “com quem” estes autores se posicionavam no ambiente político e intelectual de seu tempo. A dimensão do “contra quem” é muito importante porque, em grande medida, estruturava a argumentação dos autores genericamente denominados elitistas. Isto é, apesar de importantes desacordos entre si, Mosca, Pareto e Michels compartilhavam um claro inimigo político e intelectual: o modelo de organização da vida pública que resultou da composição entre ideias liberais e democráticas. Para eles, as noções de soberania popular, igualdade política e sufrágio universal compunham um discurso abstrato, sem sustentação real. No diagnóstico elitista, todo exercício da política, estranho às suas justificativas formais, estava destinado a formar pequenos grupos que subordinam a maior parte da população. Quanto à dimensão do “com quem”, é importante ter em conta que a reação dos três autores ao avanço da democracia não foi isolada. No final do século XIX, teorias médicas e psicológicas destacavam o que seriam o comportamento irracional das massas e as hierarquias naturais entre os homens. Na contramão da ideologia democrática igualitária, essa retórica científica condenava a presença dos homens comuns na política.
O passo seguinte do livro é investigar ecos do elitismo clássico na versão contemporânea denominada elitismo democrático, com Joseph Schumpeter e Robert Dahl, em que as elites passam de obstáculo a condição da democracia. Nesse habilidoso equilíbrio político, a ideia de democracia é ressignificada, afastada de seu sentido original. Na sua nova forma, passa a acolher a suposição das elites como atores necessários ou inextinguíveis da vida política. Deste modo, supera-se o antagonismo antigo entre elites e democracia.
Por fim, a última seção do livro é dedicada a identificar sinais do elitismo na formação da República brasileira, com atenção às obras políticas de Oliveira Viana (1883-1951) e Assis Brasil (1857-1938), figuras-chave do pensamento republicano autoritário e liberal, respectivamente. A partir deste recorte histórico específico, busquei apresentar a notável capacidade de adequação do elitismo a tradições bastante diferenciadas de pensamento sobre a política.
Encerrado o livro, o leitor encontra uma pequena coletânea de conferências e cartas de Pareto e Michels que reúnem boa parte dos argumentos desenvolvidos pelos autores, de modo mais extenso, em suas obras.

De que modo o seu livro contribui para o estudo da teoria das elites?
Além dos próprios autores reconhecidos como elitistas, este tema já mereceu o tratamento de intelectuais de renome, como Raymond Aaron, Ettore Albertoni, Moses Finley, Tom Bottomore e Norberto Bobbio. Entre os brasileiros, destaco Mário Grynszpan, que fez um belo trabalho de leitura sociológica sobre as obras de Mosca e Pareto. Essas referências são indispensáveis para um estudo mais aprofundado deste campo do pensamento sociológico e político.
Neste livro, dediquei-me a produzir uma abordagem sintética e sistemática dos principais autores e temas do elitismo, sem privilegiar um ou outro em particular. Uma espécie de panorama, enfim. Acho que esta é a principal vantagem para o leitor que estabelece uma aproximação inicial com o tema.

. Compreender a teoria das elites é uma maneira de entender melhor as políticas de poder existentes no mundo hoje?
Embora o título do livro possa sugerir certa indistinção entre o corpo teórico do que se convencionou denominar elitismo, eu resisto a uma referência genérica que não leve em consideração as importantes nuances entre os autores normalmente associados a este campo de pensamento. Um dos meus objetivos na apresentação do livro é justamente explorar a ideia de que não constituíram uma escola de pensamento bem definida, com um corpo teórico preciso e bem delimitado. Uma das cartas de Pareto, incluída no final da edição, ilustra, por exemplo, a grande tensão que marcou sua distante relação com Mosca.
A despeito das diferenças significativas entre um e outro, creio ser possível dizer que os elitistas da primeira geração colocaram o dedo na ferida ou nas feridas da experiência democrática contemporânea. Não por acaso causaram – e ainda causam – grande incômodo. Dito isso, o desafio desta literatura para aqueles que preferem acreditar nas instituições da democracia é resistir ao possível efeito demolidor da crítica sem fechar os olhos para os vícios que assombram as rotinas da democracia liberal e que são duramente assinalados pelos elitistas. O risco do incômodo é que ele produza um descarte indistinto da crítica ou, como possibilidade avessa, arraste o leitor para um ceticismo irreversível no que concerne às possibilidades de sobrevida de alguma substância de democracia na política.
A meu ver, é desejável que a crítica elitista instigue, por exemplo, a reflexão sobre os riscos da suspensão de vínculos entre o arsenal democrático e suas bases eleitorais. Isto é, que o encantamento com as rotinas institucionais da democracia não extinga a sensibilidade dos participantes e analistas da vida pública com relação àqueles que constituem formalmente o objeto de representação da política.
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> Cristina Buarque de Hollanda faz parte do Núcleo de Estudos em Teoria Política, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (NUTEP-IFCS). Saiba mais.

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> Leia entrevista com Cristina Buarque de Hollanda.

Noite de autógrafos – Livraria da Travessa RJ - 5/4/2011

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