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Corpo, imagem e representação
> Entrevista: Viviane Matesco

Corpo, imagem e representação. Como foi ligar, ao longo da história, três elementos que se confundem o tempo todo?

A necessidade de estudar a relação entre corpo, imagem e representação partiu da investigação do estatuto do corpo na arte contemporânea. A noção de um corpo primário em função das performances e trabalhos que enfatizam a corporalidade ficou reduzida à ideia simplista de que o corpo rompe com a representação ao sair da “moldura” e se apresentar literalmente. Certamente que a exposição de dimensões do corpo antes reprimidas profana a idealização de sua imagem e representação no Ocidente. O problema é que em muitos textos, corpo, imagem e representação são tratados como se fossem termos universais e, no entanto, têm sentidos distintos em cada momento. É exatamente esse o cerne do problema quando se enfrenta a questão do corpo na arte: os próprios termos não possuem um sentido único e é desse caldo que se nutre a cultura ocidental. Por isso mesmo são utilizados por diversos discursos a partir de pressupostos diferentes, mas que eventualmente se entrecruzam. Então, o trabalho no livro foi tentar fazer um esboço dessas relações para entender de que corpo é esse que estamos falando. Daí a necessidade de uma análise histórica para compreender como esses termos se configuram no Ocidente.

Estamos mais do que nunca em uma época de valorização do corpo, da experimentação e da performance. A senhora acredita nessa afirmação ou há, ao longo da história, períodos mais fortes?

Em termos da história da arte recente, essa valorização ocorre nos anos 1960 e não foi por mera coincidência. A afirmação de uma ideologia de corpo autêntico e libertário nesse período contribuiu para a construção da imagem de um corpo puro centrado na experiência física e cotidiana. No entanto, existe uma distinção entre trabalhos voltados para exploração das capacidades do corpo, típicos dos anos 1960 e a afirmação da performance que embora utilize o corpo como instrumento, não fica a ele restrito. Ao longo da década de 70, a performance acaba por se impor como meio que se descola dessa busca e ideologia de um corpo libertário para tornar-se um processo mais intelectual. A associação entre performance, fotografia ou vídeo expressa o afastamento do naturalismo típico dos happenings.

Na década de 60, o corpo era material da arte apenas enquanto durava o gesto, o acontecimento, e fotografias e filmes foram usados apenas para documentar esse momento transitório. A relação entre ação e imagem adquire novo caráter na década seguinte, uma vez que não se trata mais da fotografia ou filme como registro documental, mas do trabalho realizado para ser imagem. Nessa nova conjuntura, poderíamos afirmar que foi exatamente a consciência de representação imposta por trabalhos pensados como imagem que tornou possível a consolidação de uma linguagem do corpo nas categorias performance e videoperformance. A relação entre ação e imagem implica uma série de condicionamentos que esgarçam o efêmero e o instável, marcas da identidade inicial da arte corporal. Isso significa autonomia do meio, que se distancia do sentido de evento naturalístico contestatório com desenrolar temporal, como no happening, para se constituir em processo mais abstrato e intelectualizado. De certa maneira, volta-se para a “moldura”, no sentido de um retorno à consciência de um processo artístico, que embora não seja mais aquele tradicional, também não se confunde à experiência cotidiana. Como você pode ver, voltamos a lidar com os termos corpo, imagem e representação.

A incerteza da vida contemporânea não reforçaria essa valorização do corpo, como uma forma de ressaltar alguma coisa concreta, de sentir o real, num mundo tão cheio de virtualidades?

Os discursos variam diante do declínio da presença física em função da mediação tecnológica. A virtualidade confunde as fronteiras entre realidade e ficção, alteram a percepção e temporalidade e os artistas se posicionam de maneira distinta diante dessas mudanças. A proliferação de imagens de fragmentos corporais parece refletir sobre sua desmaterialização. Muitos artistas exploram a capacidade de novas tecnologias para refazer os próprios corpos que são com freqüência tecnológicos, híbridos, irônicos e abertos à diferença. Se, para a arte dos anos 1960, o corpo constitui o original por excelência, o ponto zero que não podemos nem falsificar nem banalizar, para os artistas atuais as idéias de falsificação, a disposição cênica e a midiatização tornaram-se familiares, uma base natural do trabalho. Eles pensam que a diferença entre autêntico e falso, verdadeiro e artificial, original e cópia não desempenha nenhum papel relevante na arte. Por outro lado, muitos trabalhos buscam alterar, desenvolver e incitar percepções, como forma de promover novas modalidades de experiências sensoriais.
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> Assista a um vídeo sobre a exposição "O corpo na arte contemporânea brasileira" com curadoria de Fernando Cocchiarale e Viviane Matesco, realizada em 2005.

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