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Kissinger e o Brasil
> Entrevista: Matias Spektor

Como foi o processo de pesquisa? O livro nasceu por acaso?

O livro nasceu de um equívoco. Eu estava pesquisando nos arquivos diplomáticos para outro projeto quando, por erro, peguei uma caixa de cartas secretas entre Kissinger e seus colegas brasileiros. Ao abri-la e ver o que tinha dentro fiquei boquiaberto. Eram documentos que davam pistas inusitadas sobre quão próxima tinha sido a relação. Fiquei intrigado e decidi começar o projeto ali mesmo.

Do material que encontrou o que pareceu mais surpreendente e que mudou sua ideia sobre o período?

Eram cartas de primeira qualidade sobre a intensidade e o escopo do relacionamento entre os Estados Unidos de Kissinger e a ditadura brasileira. Elas mostravam que as intenções de ambos os lados haviam sido de aumentar a proximidade, não a distância. Isso ia contra tudo o que eu havia aprendido na faculdade sobre esse período. Comecei a suspeitar que a história contada nos livros precisava ser revisada à luz dessas novas fontes de pesquisa.

Por que essa relação entre Kissinger e Silveira até hoje é tão ignorada?

Em parte porque os arquivos com a documentação fundamental estavam fechados até pouco tempo atrás. Em parte porque a narrativa dominante diz que, na década de 1970, as relações entre o Brasil e os Estados Unidos chegaram a seu ponto mais baixo. Isso é verdade. O que falta dizer, contudo, é que antes de colapsar, o relacionamento chegou a seu ponto de mais alta ambição. Foi um período curto, mas riquíssimo, no qual os dois maiores países do hemisfério tentaram montar uma parceria estratégica. No processo, ambos os lados ganharam bastante, apesar do projeto ter colapsado poucos anos depois.

Existe algum reflexo desse período e dessas negociações nas relações de hoje entre Estados Unidos e Brasil?

Sem dúvida. A experiência daquele passado deixou uma marca profunda. Do lado americano, a expectativa de que o Brasil possa vir a jogar um papel mais relevante nas relações internacionais continua firme, mas frustrada. Do lado brasileiro, a tônica dominante continua sendo a de que “não é bom estar no radar dos Estados Unidos”. Segundo essa influente visão, uma política de ativo engajamento com Washington traz mais riscos potenciais do que benefícios. Esse estado de coisas representa um problema central para a trajetória internacional do Brasil no século XXI.

Como foi entrevistar o próprio Kissinger sobre o assunto?

Poucos historiadores têm a oportunidade de conversar com o objeto de seus estudos. Para mim, a entrevista foi um desafio e tanto, cheia de sentimentos conflitantes. Por um lado, a intimidação de estar sentado com um dos homens mais poderosos do século XX, sobre o qual pesam graves acusações criminais. Por outro, o genuíno interesse em ouvi-lo falar sobre as perguntas para as quais eu não tinha resposta. Acho que na manhã da entrevista o estilo brusco dele me forçou a ficar concentrado. Assim que sentei para iniciar a conversa foi ele quem disparou primeiro: “Então, o que você descobriu?”. Mas ele respondeu a todas minhas perguntas, sempre com um misto de desconfiança e entusiasmo tímido.
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