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A viagem marítima da família real
A transferência da corte portuguesa para o Brasil
Durante as pesquisas foram descobertas informações surpreendentes. Um exemplo foi a comprovação de que a atitude de D.João de vir para o Brasil foi muito mais uma manobra estratégica de um grande estadista do que uma fuga movida pelo medo, não?

A meu ver, esses dois acontecimentos de suma importância que foram: a batalha de Trafalgar e o Tratado de Berlim influenciaram o futuro de Portugal. Para o Conselho de Estado, nomeado pelo príncipe regente de Portugal, d. João, deve ter ficado bastante óbvio, que mais cedo ou mais tarde, Portugal seria convocado para aderir à política do Tratado de Berlim. Portugal tentava se manter neutro porque não queria atrair os países que se encontravam em guerra para o seu território. No entanto, com a pressão que Napoleão exercia, Portugal aos poucos se viu forçado a ceder, colocando-se contra a sua mais antiga aliada, a Grã-Bretanha. O príncipe regente estava prevendo a invasão do seu país. Dois meses antes da partida, surgiu a idéia de enviar o príncipe d. Pedro, então uma criança de nove anos, para o Brasil, para assegurar a continuidade da dinastia dos Bragança, caso Portugal – como sua vizinha Espanha – viesse a cair sob o jugo de Napoleão. Essa teria sido uma forma de ir preparando os seus navios, para a viagem de transferência, sem que a França ou a Espanha desconfiassem, porque, apesar de não terem mais seus representantes em Portugal, ambos mantinham espiões bem pagos. Mas, o príncipe regente não concordou em separar a sua família.

O embarque foi no dia 27, porém, tiveram que aguardar até o dia 29 para esperar a chegada de um vento favorável, que os levaria para fora do rio Tejo. Após verificar que vinham em paz, Sidney Smith cancelou o sinal para preparar para a batalha. As 04h30min da tarde, a ruidosa descarga de salvas anunciava o início da viagem histórica. Vinte horas depois, o general francês Jean Andoche Junot, entrou em Lisboa. Napoleão foi enganado. Anos mais tarde, em exílio, ele iria lamentar que a sua sorte tinha virado quando ele decidiu invadir Portugal. Portanto, não considero a vinda de d. João como sendo uma fuga, mas uma estratégia de mestre!

Que outras descobertas surpreendente você destacaria no livro?

As condições da viagem. Como não existiam geladeiras, nem prazos de validade, a comida era quase toda estocada salgada ou seca. No início da viagem, eram transportados animais para o abate nos primeiros dias. Outro tipo de bicho a bordo, eram os gorgulhos - pequenos insetos famintos que atacavam a comida mais importante, que era o pão - chamado de biscoito. Para a expulsão desses, havia dois métodos: bater o biscoito contra uma superfície dura, encorajando-os a cair fora ou, então, colocar uma quantidade num cesto, com uns peixes crus, em cima, para os bichinhos. Era, para eles, algo de saboroso e, assim, deixavam os pães em paz. Realmente, se eu estivesse lá, não ia saber se ia preferir biscoito com gorgulho ou com sabor de peixe podre! Mais um detalhe sobre os hábitos da época: não havia um banheiro a bordo. Numa nau como a Príncipe Real, que durante a viagem ao Brasil com a família real portuguesa, transportava 1.054 pessoas, como deve ter sido ficar sem higiene?

Foram anos trabalhando como executivo e, só depois da aposentadoria, houve esta dedicação à pesquisa da história. O seu afinco é de quem esperou uma vida inteira para realizar seus projetos e verdadeiros interesses. Foi isso mesmo o que aconteceu? O que te moveu para esta pesquisa especificamente?

Sempre tive interesse pela história de nosso país, especialmente da monarquia e do império. Talvez porque meu bisavô era barão (sua mulher, minha bisavó, faleceu quando eu tinha 15 anos). Seu pai era conde e o avô, marquês. Retratos dos nobre na família, amizade com a família imperial, desde os tempos de d. Pedro II, os tri e tetravôs eram banqueiros de SMI, acho que tudo isto ajudou. O nome em inglês e a aparência (vocês não me conhecem em pessoa, mas...), enganam. Todos acham que sou gringo e, se bobear, me chamam de mister! Não queria estudar o que outros já tinham estudado e escrito, provavelmente numa forma muito melhor do que eu pretendia, pois não estudei no Brasil após os 9 anos de idade. Percebendo que a viagem não fora descrita, parti para esta brecha.

O senhor achou necessário encomendar um quadro que marcasse a imagem da chegada da família real ao Brasil. Isso porque suas pesquisas o levaram a ver detalhes que não apareciam em outras pinturas da época? Por que as informações eram tão precisas que era possível produzir uma imagem que se aproximasse de uma foto? O que achou do resultado?

Na realidade, ao terminar as pesquisas, fiz um levantamento iconográfico e descobri que a chegada no Rio só aparecia em dois leques comemorativos. Como tinha conhecimento de muitos dos detalhes para compor um quadro, pesquisei os detalhes restantes e contratei o maior pintor de marinhas desta época e presidente da Royal Society of Marine Artists, uma espécie de IHGB de pintores na Inglaterra, com uma história ainda mais longa. O óleo retrata fielmente, dentro do possível, a cena. Muitos jornalistas gostam de escrever sobre o fato que, uma vez plotado numa carta moderna o local do ancouradouro, parti com um GPS para localizar e fotografar os arredores, pois sabia que o pintor jamais viria à nossa baía. Gostei muito do resultado (é possível observar a imagem em detalhes no link desta página ou na capa do livro). Tenho aberto, sem restrições, a todos que pedem (e pedidos chovem de Fortaleza à Porto Alegre), pois acredito que, para muitos, a visão ajuda a entender e lembrar esta grande ocasião, principalmente para o Brasil colônia.

Sua pesquisa foi muito esperada pelos historiadores, por revelar um ponto de vista até então desconhecido da história do Brasil. Como tem sido este primeiro momento, depois da publicação de matérias na imprensa? Quais são as perguntas mais freqüentes relativas à viagem?

De fato, como tenho dado muitas palestras, aqui e em Portugal, parte do 'achado' já se encontrava de conhecimento de historiadores (a minha pesquisa, é a base destes livros), mas não posso me queixar, pois sempre reconhecem a fonte única das informações. Não imaginava, em 1990, quando comecei o trabalho, que em 2008 ia despertar tanto interesse. Minha maior satisfação é revelar (aquilo que defendo aqui e em Portugal) uma imagem de um príncipe regente e rei, longe das caricaturas de ontem. É muito gratificante, pois há muito luto por essa mudança. Perguntas sobre a viagem são poucas, o que todos querem é a permissão para usar a imagem da chegada!

Pretende continuar a pesquisar aspectos desconhecidos da nossa história? Já tem um novo projeto?

Historiador nunca pára! O meu próximo projeto é bem diferente, mas, ao mesmo tempo, acho eu, mais difícil. É descobrir quem escreveu Sketches of Portuguese Life, Manners etc (1826). Um importante livro para entender Portugal nesta época. O autor assinou a obra como A.P.D.G. e, até hoje, depois de milhares de pesquisas, ninguém descobriu quem era ele! Será que eu vou?

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Kenneth Light fez uma palestra no Instituto Histórico Geográfico Brasileiro no dia 5 de março. Saiba mais.

Assista matéria com Kenneth Light no Bom Dia Rio.

Saiba mais sobre a travessia em matéria com o pesquisador no Jornal Nacional.

Mais informações sobre a viagem em matéria no portal G1.

Escute esta entrevista com Kenneth Light no site do jornal O Dia.

Leia matéria com o autor na Revista de História da Biblioteca Nacional.

Saiba mais detalhes sobre a pintura encomendada para o livro em matéria na Revista de História da Biblioteca Nacional.

CONFIRA TAMBÉM!
Leia a entrevista com Kenneth Light.

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