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Literatura Policial Brasileira
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Os mistérios do policial à brasileira
A pesquisadora Sandra Reimão analisa o nascimento e o desenvolvimento do gênero no País

Pesquisadora do mercado editorial brasileiro e professora na área de comunicação, Sandra Reimão foca seus estudos no ato da compra, traçando o tipo de demanda que os leitores procuram suprir ao comprar um livro. "Uma das características do mercado editorial brasileiro é a chamada literatura de entretenimento, que inclui terror, ficção científica, romances sentimentais e policiais", descreve ela. No mundo, a literatura policial sempre rendeu best-sellers. No Brasil, o gênero só tomou fôlego com os livros de Rubem Fonseca.
Na tentativa de entender o nascimento e crescimento da literatura policial nacional, Sandra resolveu se dedicar ao tema. Suas pesquisas resultaram no livro Literatura Policial Brasileira. Em entrevista ao Estado, a autora fala sobre os meandros de um tipo de literatura atraente e, ao mesmo tempo, alvo de tão pouco estudos no Brasil.

O que caracteriza a literatura policial em linhas gerais?
A literatura policial no mundo é caracterizada por duas grandes linhas: o enigma e o noir. o enigma é aquele tipo Sherlock Holmes, cujo detetive é racional, deduz um crime, investiga algo com o qual ele não está envolvido. O noir não. O detetive é brigão, se envolve nas histórias. No Brasil, existem essas duas grandes linhas, mas com características mais específicas.

Em seu livro, Literatura Policial Brasileira, você cita essas características presente na literatura nacional, como a descrença na Justiça, não?
Sim, há alguns traços que já existem no gênero, mas são salientados no romance brasileiro. Talvez o mais gritante deles seja a ironia, o deboche, o cômico. Outra característica é a quantidade de crimes impunes e também a justiça pelas próprias mãos. Essas características são um reflexo do que é a sociedade brasileira.

Até que ponto personagens famosos como Sherlock Holmes e Hercule Poirot influenciaram nossos personagens?
Eles são modelos de dedução de uma investigação. Uma outra vertente da literatura policial é a citação de outros detetives e é possível encontrar nos romances brasileiros referências a esses dois personagens e, às vezes, usados até para se distinguir, do tipo: "Ele não atuou como Sherlock Holmes".

Qual a importância de Rubem Fonseca para o gênero no Brasil?
Rubem teve bastante sucesso nos anos 70, porque surgiu com uma temática de violência forte. Ele não faz exatamente literatura policial, mas é aparentado dela. Muitos dos autores atuais se referem a ele como modelo.

Além de Rubem Fonseca, quais autores foram importantes? E da produção atual, algum nome ou romance que chame a atenção?
Os mais consolidados são o Luiz Alfredo Garcia-Roza e o Joaquim Nogueira. O primeiro, como detetive Espinosa e histórias que se passam no Rio. O segundo, com o investigador Venício e tramas que ocorrem em São Paulo. Da produção atual, destacaria Nada mais foi dito nem perguntado, de Luis Francisco Carcalho Filho; Vende-se vestido de noiva, de Denise Assis; Paisagem nortuna, de Vera Carvalho Assumpção; e O canto da sereia, de Nelson Mota.

Como é que o mercado absorve esse tipo de literatura no Brasil?
Os livros da coleção policial da Companhia das Letras vendem bem, independentemente se são brasileiros ou não. Vejo que todas as grandes editoras têm uma coleção, por isso, tem muita gente escrevendo. A literatura de entretenimento, no qual se insere os policiais, está crescendo.

Muitos romances ganharam versão no cinema, como Bufo & Spalanzini, Ed Mort, A Grande Arte. Você acha que isso ajuda a divulgar o gênero?
Acho que nenhum desses filmes fizeram muito sucesso, então, por enquanto acredito que não. Mas o Mandrake, de Rubem Fonseca, vai ser série da HBO. Li que o Espinosa, personagem do Garcia-Roza, vai ganhar um filme, em que ele, o protagonista, não aparece.

Quais personagens brasileiros mais se destacaram?
Espinosa, Madrake, Venício e Ed Mort. O Espinosa é interessantíssimo, porque não é grande detetive, é o policial médio, do Rio. Daí a grande sacada: mesmo com qualudade mediana, é possível ser um cidadão competente. É a mesma carcterística do investigador Venício, do Joaquim Nogueira, só que ele é mais violento e é de São Paulo. Mandrake já estaria mais próximo do noir, se envolve nas histórias. E Ed Mort leva o cômico ao extremo, está sempre fazendo ironia do ser detetive, está sempre sem dinheiro. Parece ser o paradigma da presença do cômico, que inside sobre o protagonista, em primeiro lugar, e sobre a trama. Luis Fernando Veríssimo, com seu Ed Mort, não só levou uma característica ao extremo a ponto de torná-la cômica, mas construiu isso por meio da linguagem.

O que caracteriza um bom livro de literatura policial?
Todorov fala uma coisa que acho verdadeira: que na literatura, o grande escritor é o que renova no diálogo com o literário. Com a literatura de entretenimento, é o contrário: o grande escritor é aquele que se mantém no gênero e consegue cativar, entreter e até renovar, mas dentro do gênero.

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