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Detalhes:
Brochura
16 x 23 cm
256pp
ilustrado
R$ 46,90

Data de Lançamento:
17/4/2002

ISBN:
978-85-7110-643-7

Tradução:
Maria Luiza X. de A. Borges

Vinho e Guerra


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Vinho & Guerra
Os franceses, os nazistas e a batalha pelo maior tesouro da França
CLIPPING
Tiros foram disparados. Houve roubos, confiscos e abusos. Também ocorreram trapaças, traições e golpes de todos os tipos. Colaboração versus resistência. Pessoas morreram. Outras passaram anos na prisão. Aproveitadores enriqueceram. Muita gente se arruinou. Tudo em nome da "jóia mais preciosa da França", nas palavras de um ministro de Estado, ditas em 1938, antes que tudo acontecesse.
A história da ocupação da França pela Alemanha na Segunda Guerra Mundial é bem conhecida. Mas o casal de jornalistas americanos Don e Petie Kladstrup descobriu, por acaso, que um capítulo fundamental dessa epopéia ainda não havia merecido a devida atenção dos historiadores. Talvez porque "envolve assuntos sensíveis, como a colaboração com o inimigo", conforme disseram a CartaCapital.
O fato é que, quase 60 anos depois do fim da guerra, os Kladstrup publicaram Vinho & Guerra, acompanhado de um subtítulo que diz tudo: Os franceses, os nazistas e a batalha pelo maior tesouro da França. Uma leitura surpreendente sobre esta luta que, na aparência, foi por garrafas de vidro, mas, no fundo, se deu mesmo pela liberdade.
Os autores centram a narrativa na trajetória de cinco famílias, algumas com sobrenomes conhecidos entre os apreciadores de vinho: os Drouhin (Borgonha), os Miaihle (Bordeaux), os Nonancourt (Champagne), os Hugel (Alsácia) e os Huet (Vale do Loire). Diante da falta de bibliografia, a reconstituição foi feita, basicamente, através de entrevistas. Alguns protagonistas, hoje octogenários, ajudaram, assim como muitos de seus descendentes, crianças durante a guerra.
A história que mais encanta é a de Bernard de Nonancourt. Aos 23 anos, sargento do Exército francês, oriundo da região de Champagne, foi o primeiro "aliado" a entrar na adega que Hitler guardava em seu refúgio nos Alpes bávaros, um castelo 2.500 metros acima da cidade de Berchtesgaden.
Foi no dia 5 de maio de 1945, enquanto os alemães batiam em retirada. Depois de disputarem uma "corrida" com as tropas do Exército americano, o regimento comandado pelo general francês Philippe Leclerc chegou em primeiro lugar ao pé da casa onde Hitler havia humilhado o britânico Chamberlain um pouco antes da guerra.
O sargento De Nonancourt foi encarregado de liderar a missão até o alto da montanha. Ao entrar, finalmente, na cave, encontrou meio milhão de garrafas dos melhores vinhos que a França jamais havia produzido, rótulos com os nomes Château Lafite-Rothschild, Château Mouton-Rothschild, Château Latour, Château d`Yquem e Romanée-Conti.
O sargento se lembra também de ter encontrado garrafas de Lanson, champanhe que pertencia a um tio seu. "Ajudei a fazer esse champanhe", pensou, ao ver as garrafas.
Mais impressionante ainda, recordou-se muitos anos depois, foi ver na adega do ditador nazista centenas de caixas de champanhe Salon, da safra de 1928. Apenas cinco anos antes, em 1940, trabalhando numa casa de champanhes, em Le Mesnil-sur-Oger, De Nonancourt havia visto soldados alemães carregarem dezenas de caixas desse mesmo champanhe. "Era excelente, e só havia quantidades mínimas dele", conta no livro.
Muitas daquelas garrafas traziam no rótulo a indicação "reservado para a Wehrmacht". O sargento riu, relatam os Kladstrup. Eram litros e litros que o Exército alemão havia requisitado para manter o moral das tropas. Grande parte desse champanhe era quase zurrapa, vinho de péssima qualidade, introduzido em garrafas com rótulos famosos - um dos pequenos truques usados pelos produtores durante a ocupação.
Para entender como aquelas garrafas - as de qualidade e as vagabundas - haviam ido parar na fortaleza de Hitler, é preciso retroceder cinco anos. E é essa viagem que Vinho & Guerra propõe.
Primeiro, convém dizer que os franceses conseguiram salvar milhões de litros de vinho da sanha nazista. Maurice Drouhin, por exemplo, teve a percepção de que as caixas de Romanée-Conti, das safras de 1929 a 1938, que guardava representavam a segurança da sua família.
Sua adega era um labirinto de caves sob a cidade de Beaune, na Borgonha, algumas delas escavadas séculos atrás. Em 1940, prevendo o pior, Drouhin construiu uma parede, atrás da qual escondeu os seus vinhos preciosos.
A operação foi presenciada pelo filho, Robert, que deu aos autores detalhes saborosos: "Enquanto papai assentava os tijolos, minha mãe, minha irmã e eu corríamos pela adega catando aranhas para pôr sobre a parede. Depois, elas fariam teias e deixariam a parede parecendo mais velha".
Três anos depois, a Gestapo estava convencida que Drouhin pertencia à Resistência. Ao ouvir as batidas na porta de casa às 6 da manhã, o vinicultor pegou embaixo da cama a mala que havia deixado pronta para essa eventualidade e fugiu. Primeiro, percorreu os labirintos da própria adega, chegou à rua e, finalmente, encontrou abrigo entre religiosos católicos. Só voltaria para casa nove meses depois.
Nem todos tiveram a mesma sorte. Por exemplo, François Taittinger (um sobrenome conhecido por quem aprecia champanhe) acabou na cadeia por tentar enganar os alemães.
Maníacos por organização, os nazistas enviaram à França ocupada três encarregados de fazer negócios com os vinicultores franceses. Negócios - diga-se logo - feitos com uma faca apontada contra o peito do inimigo. Os planejadores do Reich os chamaram de "comerciantes de vinho fardados". Os franceses os apelidaram com um nome mais engraçado: weinführers, ou líderes do vinho.
No lugar de simplesmente fazer vista grossa para a pilhagem, o regime nazista encarregou Otto Klaebisch (Champagne), Adolph Segnitz (Borgonha) e Heinz Bömers (Bordeaux) de lidarem com os vinicultores franceses, oferecendo alguns caraminguás pelo vinho.
Foi nessa que Taittinger parou atrás das grades. Como muitos outros colegas, ele enviou ao weinführer champanhe de péssima qualidade, acreditando que poderia vender gato por lebre, uma vez que estava sendo muito mal pago pela encomenda.
Klaebisch, porém, assim como os outros dois weinführers, havia sido escolhido pelos nazistas justamente pela experiência no comércio de vinhos. "Como se atreve a nos mandar essa água choca espumante?", gritou o alemão com o francês, antes de mandá-lo para a cadeia, onde Taittinger encontrou vários produtores que haviam feito a mesma coisa.
Libertado depois de poucos dias, não viveu o mesmo suplício que Robert-Jean de Vogüé, da Maison Moët Chandon, que passou um ano e meio num campo de trabalhos forçados.
Os Kladstrup aceitam a tese de que, através das compras de champanhe feitas por Klaebisch, a Resistência foi capaz de descobrir informações valiosas sobre a movimentação do exército nazista. A primeira vez que isso ocorreu foi em 1940, quando eles encomendaram milhares de garrafas a ser enviadas à Romênia, onde só havia uma pequena missão alemã. Alguns dias depois, a Romênia foi invadida e garrafas de champanhe distribuídas entre os soldados.
Na avaliação dos autores, com a ajuda dos weinführers, cerca de 320 milhões de garrafas foram expedidas a cada ano para a Alemanha. Ou melhor, com a ajuda dos weinführers e, é obrigatório dizer, com a inestimável colaboração de muitos franceses.
Esse é um assunto até hoje tabu na França. Mesmo para contar a trajetória do explícito colaboracionista Louis Eschenauer, Don e Petie Kladstrup ficam cheios de dedos. Com todo o cuidado, mostram a ascensão e queda desse comerciante de Bordeaux, conhecido como Tio Louis.
Para dar uma idéia de seus laços, antes da guerra Eschenauer era representado na Alemanha por Joachim von Ribbentrop, depois ministro das Relações Exteriores de Hitler. Quando os alemães confiscaram propriedades viníferas de judeus para vendê-las a não-judeus, Tio Louis montou uma empresa para se habilitar à discreta compra de terras desse tipo.
Detido pela Resistência quatro dias depois da saída dos alemães de Bordeaux, Eschenauer foi condenado a dois anos de prisão. Engrossou uma triste estatística. Cerca de 160 mil franceses foram acusados formalmente de colaboracionismo. Mais de 7 mil foram condenados à morte e outros 38 mil receberam penas de prisão.
Os Kladstrup encerram a narrativa lembrando que os camponeses franceses acreditam na existência de uma relação especial entre a guerra e as uvas. Deus, dizem, manda uma safra de vinho ruim quando a guerra começa e uma excelente para marcar o seu fim. Foi exatamente o que ocorreu em 1939 e em 1945. As inovações tecnológicas que vieram a seguir alteraram profundamente a maneira de fazer vinhos na França, marcando a de 1945 como "a última grande safra do século XIX".
"Dias de guerra e vinho", Mauricio Stycer, CartaCapital, #187, 01/05/2002


"Os Kladstrup falam sobre a política de Hitler e a dificuldade, ainda hoje, de abordar o tema da colaboração de franceses com o nazismo.
CartaCapital: Por que, na sua opinião, nenhum historiador francês escreveu um livro similar antes?
Don & Petie Kladstrup: Muitos de nossos amigos franceses já fizeram a mesma pergunta e a resposta pode ser muito simples. Às vezes é necessário um olhar estrangeiro para reconhecer uma boa história. Somos americanos. A história de como a França tentou proteger seus vinhos dos nazistas praticamente pediu para ser contada. Tivemos sorte por poder fazer isso.
CC: Só isso?
D&PK: Provavelmente existe outra razão pela qual ninguém na França contou essa história. Ela envolve assuntos sensíveis como a colaboração com o inimigo. Um dos capítulos lida com Louis Eschenauer, um proeminente vendedor de Bordeaux, condenado justamente por ter colaborado com os nazistas. Mesmo hoje, muitos na França ainda se sentem desconfortáveis em discutir a colaboração, preferindo acreditar que todos os franceses resistiram. "Deixem os mortos dormir em paz e os vivos viver em paz", nos disse um negociante de Bordeaux.
CC: Os senhores acham que, se Hitler apreciasse vinho, o prejuízo causado pelos nazistas aos produtores franceses teria sido maior?
D&PK: Não. Em primeiro lugar, Hitler e os nazistas entenderam que a indústria vinícola francesa era como uma jóia preciosa e tinha de ser protegida. Uma riqueza imensa estava em jogo. Era do interesse do Terceiro Reich assegurar que as vinícolas francesas e os vinhedos permanecessem intactos. A maioria dos danos - a pilhagem e os saques - que ocorreram aconteceu nos primeiros dois ou três meses da ocupação, antes que as autoridades alemãs, incluindo os weinführers, restaurassem o controle.
CC: O livro pode passar a impressão de que houve mais coragem do que covardia durante a ocupação alemã na França. Os senhores concordam com isso?
DPK: Sim, e achamos que muitos historiadores concordariam. Logo depois da guerra, numa tentativa de unir o país, Charles de Gaulle quis passar a noção de que todos os franceses resistiram. Isso, é claro, era falso, como mostrou o historiador Robert Paxton. Agora, no entanto, o pêndulo se move na outra direção. Enquanto só uma minoria lutou na Resistência, muitos tomaram parte no que os historiadores chamam de resistência passiva: "acidentalmente" derrubando a garrafa de vinho de soldados alemães ou usando roupas nas cores azul, branca e vermelha da bandeira francesa (o que foi banido pelos alemães).
CC: A imagem que os senhores passam de dois dos weinführers é quase simpática.
DPK: Admitimos que a imagem de Heinz Bömers e Adolph Segnitz parece quase simpática. A intenção, no entanto, não foi a simpatia, mas a precisão. Abordamos a história dos dois weinführers com grande ceticismo. As investigações pós-guerra de Bömers e Segnitz revelaram que nenhum dos dois tinha feito algo de errado e que ambos poderiam continuar com o seu negócio de importação de vinhos franceses. Bömers, aliás, instruiu a sua secretária para que não queimasse seus papéis, facilitando o trabalho dos investigadores que determinariam o que ele fez ou deixou de fazer.
CC: Uma pergunta pessoal: que tipo de vinho os senhores apreciam mais?
DPK: O que nos dá o maior prazer é um bom Borgonha. Em segundo lugar, viria um dos grandes vinhos doces do Loire, como uma garrafa de Vouvray de 1947, que Gaston Huet, um dos personagens do livro, dividiu conosco um dia."

"Uma riqueza imensa estava em jogo."
Mauricio Stycer, CartaCapital, #187, 01/05/2002


"Um dos livros mais interessantes já escritos sobre vinhos(...) É um livro para se apaixonar pela perseverança e amor dos vinhateiros franceses. Imperdível para sua biblioteca."
Ricardo Castilho, "Estante do Gourmet" - Gula, #116, Ano 10 - Junho/2002

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